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Macunaíma - O Herói Sem Nenhum Caráter completa 90 anos

Por Iara Rennó

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Em 2018 Macunaíma - O Herói Sem Nenhum Caráter completa 90 anos de edição, o que significa que meu disquinho de estréia solo completa 10! Um trabalho que acredito ser uma missão, trazendo consigo uma discussão riquíssima, sempre atual e imprescindível. E que processo maravilhoso foi produzir esse disco! Quantos amigos queridos, gente que admiro demais, e que delícia poder juntá-los todos ao texto máximo de Mário de Andrade.

Para comemorar, já está rolando uma série de ações macunaímicas, que devem se estender durante todo o ano pela terra brasilis, e mundo, quiçá! São pocket-shows, mesas de conversa, shows e aulas-show em diversos eventos literários e musicais. Além de entrevistas e o esperado lançamento digital do álbum! Conheça com detalhes o projeto desde sua gênese até agora, ao longo desta página. Vamos macunar geral!


A música em Macunaíma

Mário de Andrade foi um dos primeiros documentadores do folclore nacional; um descobridor e revelador da cultura propriamente brasileira. Pesquisador, escritor, poeta, músico e musicólogo, antes de tudo, uma pessoa bastante ligada a musicalidade. Presente em mais da metade de sua obra, a música, explícita ou implicitamente aparece como seu fio condutor. É como se sua visão de mundo partisse da música. Musicalidade que culmina em Macunaíma.

Macunaíma é obra prima de reconhecida importância nacional. Mais que uma colagem de lendas, mitos e rituais indígenas, com temperos africanos e portugueses, mais do que uma leitura da formação da cultura brasileira, é a própria cultura em formação. Na tentativa de encaixar a obra em uma classificação literária, foi lhe associado o termo "rapsódia" que, para o autor, remetia diretamente às fantasias instrumentais que utilizavam temas e processos de composição improvisada, tirados de cantos tradicionais ou populares". Sendo a música o mais orgânico veículo de expressão e continuidade da tradição popular oral, Macunaíma está cheio de canções e de musicalidade. É a 'ópera tupi', uma odisséia modernista que, pela própria estética do modernismo, não se apresenta no esquema de métrica e rima pressuposto pelas tradicionais epopéias. No final do livro está a prova irrefutável: "Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói da nossa gente".

“Li Macunaíma pela primeira vez no ginásio, sem prestar atenção, e pela segunda na faculdade de Letras (USP); desta vez, ao ler o primeiro período do livro, uma melodia me saltou aos ouvidos como que imagem em 3d quando salta aos olhos. A prosa apresentou seu ritmo, sua ginga, cheia de rimas e aliterações, reverberações dos sons. Na minha cabeça a música começou a tocar e não parou mais. Logo tive contato com textos de Haroldo de Campos, Gilda de Mello e Souza, Telê Ancona Loez e José Miguel Wisnik que, cada um sob seu ponto de vista, tratam da presença da música na obra, comprovando minhas intuições e embasando meu intento de fazer o livro virar ‘num’ disco. Fiquei desde 1999 trabalhando pra dar forma a esse cancioneiro. São três as passagens de texto em prosa que musiquei, fazendo cortes, mas nunca acrescentando palavras. O resto das canções foram feitas sobre os versos que a história traz – músicas que sempre estiveram ali, mas quietinhas. E as formas da música popular folclórica do Brasil se misturaram com tudo quanto é música contemporânea que ouvi. Então eu fiz: conservando e corrompendo a tradição, colando e recriando, bem ao gosto do poeta e ao sabor da obra, 'na fala impura'.” Iara Rennó

Gravado com o patrocínio da Petrobrás (PPC 2006) e lançado pelo selo SESC em 2008, o disco Macunaíma Ópera Tupi tem sido utilizado como complemento do estudo da obra original em aulas de literatura por professores de colégio e cursinho pré-vestibular pelo país.


Macunaíma Ópera Tupi - álbum

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Ele está chegando ao mundo virtual! Em breve, lançamento em todas as plataformas digitais, pelo Selo SESC. Produzir esse disco foi uma viagem profunda pra dentro da história do livro e portanto de mitos e lendas da nossa própria história. Um processo antropofágico em que tive a honra de ter participações de artistas de diferentes gerações e estilos: de Tom Zé `a  Moreno Veloso, de Arrigo Barnabé `a Siba, de Barbatuques `a M.Takara. O projeto do álbum foi selecionado e premiado pelo Prêmio Petrobrás Cultural 2006, gravado em 2007 e lançado em 2008 pelo Selo SESC.

Cada faixa tem uma instrumentação diferente, um estilo, um encontro. Assinam as produções artistas que também tocam no disco: Siba, Kassin, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Beto Villares, Alexandre Basa, Maurício Takara, Daniel Ganjaman, Quincas Moreira e Buguinha Dub, além da própria Iara. Arrigo Barnabé e Dante Ozzetti participam com incríveis arranjos de cordas e Caçapa com arranjo de metais. Tocando e cantando, temos Tom Zé, Funk Buia, Bocato, Anelis Assumpção, Guizado, Andréia Dias, Gustavo Ruiz, Maurício Badé, Tom Rocha, André Negão, Simone Julian, Simone Sou, Joana Adnet, Amilcar Rodrigues, Marcelo Monteiro, Tiquinho, Mariá Portugal, Gustavo Souza, Décio Gioielli, Funk Buia, Rian Batista, Bocato, João Taubkin, Guello, Dimous Goudaroulis, Zezinho Pitoco, Dj Marco e  Vina Lima. Os tambores da Nação Zumbi: Gilmar Bola 8, Toca Ogã e Da Lua. Os Barbatuques: Marcelo Pretto, Dani Zulu, André Hossói, Fernando Barba, Mairah Rocha, Bruno Buarque, Flávia Maia. O Coro dos Espíndola: Alzira E, Tetê Espíndola, Sérgio Espíndola, Jerry Espíndola. Com Siba, a Fuloresta: Biu Roque, Mané Roque, Cosmo Antônio, Zeca, Bolinha, Galego do Trombone, João Minuto, Roberto Manoel. O quarteto de cordas: Luiz Amato, Ricardo Fukuda, Alexandre de Leon e Flávio Geraldini. São ao todo - entre músicos, cantores, produtores e arranjadores - 67 participações, todas pra lá de especiais, fora a equipe técnica. Um trabalho que envolveu muita gente, no melhor sentido da palavra, abraçando e sendo abraçado, dando espaço criativo e propondo caminhos.

Nas diferentes formações da banda dos shows, passaram também os incríveis artistas e músicos: Karina Buhr, Curumin, Daniel Gralha, Guilherme Kastrup, Simone Sou, Du Moreira e Guilherme Held.

Quer o disco físico, com a ficha técnica completa e texto de apresentação do Professor Danilo Santos de Miranda? Receba em casa comprando pelo site do SESC

Ouça entrevista contando um pouco deste “disco que dava um livro” no Programa Radar (rádio Roquete Pinto, RJ), gravado ao vivo no dia 14de abril.

Não conhece o disco ainda? Aqui!


Macunando seu evento

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Macunaíma Ópera Tupi - solo

Acompanhada por sua guitarra, Iara passeia por todo repertório do disco, cantando e contando os causos de nosso anti-herói brasileiro, propiciando um mergulho na gênese da composição que resulta do encontro entre música e literatura. Compacto em formação instrumental (guitarra e voz), ele fica bem em espaços menores ou estruturas técnicas reduzidas. Duração aproximada: 60min.

Macunaíma - pocket-show

Compacto em formação instrumental e tempo de duração, é o mesmo que Macunaíma - solo, mas com tempo reduzido. Ideal para eventos que também tem outras atividades no mesmo dia. Acompanhada por sua guitarra, Iara passeia por parte do repertório do disco, cantando e contando os causos de nosso anti-herói brasileiro, propiciando um mergulho na gênese da composição que resulta do encontro entre música e literatura. Duração aproximada: 30min.

Macunaíma Música e Prosa

Tendo como fio condutor as músicas criadas por Iara, Macunaíma Música e Prosa revela com detalhes a natureza essencialmente musical de Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter, obra original de Mário de Andrade. Executadas ao vivo, as canções serão contextualizadas na história e terão sua gênese contada, assim como um breve apontamento das referências folclóricas a que remetem - através de exemplos comparativos com os registros em áudio da Missão de Pesquisas Folclóricas (expedição idealizada por Mário e realizada na década de 30). Em cada canção será analisada a forma do texto que foi utilizado na composição e quais as características poético-musicais nele presentes. Meio aula, meio show, com espaço para bate-papo, pode ser realizada em auditórios e salas multimídias. Ideal para eventos de universidades ou espaços de discussão de literatura. Duração aproximada: 100min.

MACUNAS

Este é um espetáculo que mistura música, literatura e artes visuais. Com três mulheres ao palco em performance eletrizante, a Iara e suas amazonas musicais – as MACUNAS – apresentam o repertório do álbum Macunaíma Ópera Tupi. As músicas, todas criadas com trechos da obra original de Mário de Andrade, ganham novos arranjos na formação do trio. Guitarra, bateria, samplers, clarone e as vozes singulares conferem ao som expressividade única. O show conta ainda com vídeo-cenário, criando uma atmosfera cinematográfica onde as performers ficam imersas. Assim como o livro e o disco, MACUNAS nasce também do processo antropofágico, onde, após o ato de devorar o anti-herói Macunaíma e toda sua substância, a Uiara (Iara) o devolve ao mundo, desta vez em recriação essencialmente feminina. Duração aproximada: 70min.

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Macunaíma Ópera Baile - o musical

Reunindo uma equipe de cerca de 40 pessoas – entre elenco de músicos, atores, dançarinos, circenses, técnicos e produtores – o musical transporta o público para o universo ‘macunaímico’, numa releitura contemporânea, atual, que tem a música como fio condutor. Com banda formada por músicos de grande atuação na cena paulistana; dançarinos; atores de renome; quarteto de cordas; interações audiovisuais; Paschoal da Conceição como Mário de Andrade; cenografia e direção de arte de Gert Seewald, o espetáculo transita por todas as linguagens artísticas.

Idealmente pensada para um teatro ‘passarela’ e com diferentes alturas, a peça pode ser adaptada para o palco italiano, com estruturas de andaimes para a criação dos diferentes planos. O conceito de ópera- baile foi imaginado e rascunhado pelo próprio Mário de Andrade num pequeno manuscrito de duas páginas contendo a sinopse de seis atos da peça. Muitas décadas depois esse musical viria a ter sua primeira montagem, recriado por Iara Rennó, numa brevíssima temporada (três dias) no Teatro Oficina em dezembro de 2012, com sucesso de público e crítica. Duração aproximada: 120min.



Macunaíma Ópera Baile – teaser no Teatro Oficina

HISTÓRICO do PROJETO

1999 - inicia-se a criação do projeto, quando, durante trabalho de conclusão de curso de literatura brasileira com o prof Augusto Massi, na Faculdade de Letras, FFLCH, USP são apresentadas 6 músicas compostas com textos do livro.

2001 - Primeira gravação pública das músicas Mandu Sarará e Vale-me, que são selecionadas para o projeto Rumos Musicais Itaú.

2003 - As músicas Macunaíma e Valei-me integram o repertório do disco Composição, da banda DonaZica

2006 - O projeto é selecionado pelo Prêmio Petrobrás Cultural, que possibilita a gravação do disco.

2007 - Produção/ gravação do álbum.

2008 - Lançamento do disco Macunaíma Ópera Tupi pelo Selo SESC.

2009 - Circulação do show MacunaÓpera pela capital e interior de SP.

2009 - Circulação do show MacunaÓpera pela capital e interior de SP, Brasília e Salvador.

2010 - Montagem do musical Macunaíma Ópera Baile, no Teatro Oficina

2013 - Macunaíma pocket Ópera no Rio de Janeiro

2014 - Show MACUNAS na festa da Une em homenagem à Mário de Andrade

2015 - Macunaíma aula-show e MACUNAS na Casa das Rosas em eventos de homenagem `a Mário de Andrade; MACUNAS na Ocupação Mário de Andrade no SESC Ginástico/

2016 - Macunaíma aula-show na Casa Mário de Andrade na programação de 90 anos da criação de Macunaíma

2017 - Macunaíma Música e Prosa na Semana MariOswald - 100 anos de uma amizade, CCSP, SP

2018 - Show MACUNAS - Festival Literópolis, SESC Escola Jacarepaguá (Rio de Janeiro, RJ); Macunaíma pocket show no encontro Macunaíma 90 Anos na Tapera Taperá (SP); MACUNAS na Mostra Literária Prof. Glorinha Sá Rosa (Campo Grande, MS); Macunaíma Música e Prosa no IEB (USP, SP); Macunaíma Ópera Tupi - solo - Casa Viva Piracaia (Piracaia, SP); Macunaíma Música e Prosa na Biblioteca Almeida Garret, Porto, Portugal; Macunaíma pocket-show na Fnac Colombo, Lisboa Portugal.


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Macunaíma Ópera Baile

por Prof José Miguel Wisnik, dezembro de 2010

“Finalmente vi a “Macunaópera” de Iara Rennó, o ambicioso espetáculo com percussões, teclados, naipe de metais, quarteto de cordas, bailarinos, tendo ao centro a compositora, cantora, instrumentista e atriz dançarina. (…) o espetáculo me convenceu justamente pela coesão. Iara não quer narrar nada, não quer contar mais uma vez a famigerada história do herói sem nenhum caráter. Ela extrai de “Macunaíma” aqueles fragmentos de cantilenas mântricas, aqueles vestígios de música que estão no livro de Mário de Andrade por toda parte, e nos envolve num banho hipnótico que é pura atmosfera de palavras-sons. Entra no livro por uma orla menos consciente dele, mas que é a chave de tudo, no caso desse escritor músico. (...)

Assim vai indo quando chegamos ao momento mais surpreendente. Thalma de Freitas, que dormia até ali em cena, numa rede, no papel de Macunaíma, se levanta para a cena crucial em que o herói se defronta com a Uiara mortífera que o aguarda tentadoramente no fundo de uma lagoa, enquanto ele é chicoteado imaginariamente pelo calorão da vingativa Vei, a Sol.

Segue-se um dueto vertiginoso entre Thalma e Iara, em que ambas cantam alternadamente as “Bachianas Brasileiras” n. 5 de Villa-Lobos, na íntegra, enquanto alternam as falas do episódio das sereias em Ulisses e o episódio do mergulho e do estraçalhamento de Macunaíma. Conhecemos as “Bachianas” por Bidu Sayão, da época de Villa-Lobos, lembramos do momento em que Elizete Cardoso ousou cantá-la, nos anos 60, instigada pelo irrequieto maestro Diogo Pacheco, tendo sido impedida de continuar a faze-lo, lembramos da cena em redemunho de Corisco e Rosa em “Deus e o diabo na terra do sol”, todas as vicissitudes que essa melodia atravessou entre o erudito e o popular, a música e o cinema, até vê-la se cruzar com a cena capital do Modernismo, a ambivalente morte e renascimento do herói de nossa gente.

Que isso seja feito com uma beleza inacreditável, hoje, por uma jovem negra linda, de cabelo moleque, cantora da Orquestra Imperial e atriz de telenovelas, diante de uma outra que faz renascer o livro porque o tem todo em si, e que se chama justamente Iara, provocou em mim um efeito-cascata de emoções profundas. É que, por menos que sejamos capazes de percebê-lo de uma maneira concentrada, uma coisa assim não acontece sozinha, e só acontece como sinal de outras.”

Obra Social obra social

Por consequência da importância da obra original, a leitura musical produzida, além de apresentar expressão estética singular, estende-se ao âmbito da educação, podendo assumir caráter didático se usada como estudo complementar do livro. Com esse fim, algumas centenas de exemplares do disco foram distribuídas em escolas em secretarias de educação e cultura de vários estados, fundações de Cultura, Pontos de Cultura, bibliotecas, centro de formação de professores, e ONGs – muito além da contrapartida social obrigatória de qualquer projeto realizado através de incentivo fiscal – já que um grande agente motivador para a realização do projeto foi justamente o fato de saber que algumas músicas, desde 2003, já estavam sendo usadas em aulas sobre o tema referido.


Interações Espontâneas

Macunaíma - Iara Rennó por Prof. Ricardo Andrade