Iara Rennó e Macunaíma - 20 anos de história ARCO E FLECHA

Macunaíma Ópera Tupi - Trans_criação

Por Iara Rennó

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Em comemoração aos 90 anos completados em 2018 de Macunaíma - O Herói Sem Nenhum Caráter, obra essencial de Mário de Andrade, a Ópera Tupi de Iara Rennó ganha nova montagem. Sempre contemporâneo e em constante transmutação, o espetáculo parte da formação encenada em 2010 no Teatro Oficina Uzina Uzona, mas se aprofunda na mitologia original e se amplia em sua ação de representatividade. Desta vez Makunaima assume vários corpos, como o da multiartista transgênero Aretha Sadick, do artista macuxi Jaider Esbell, das cantoras Luz Marina e Vanessa Negravat, além da própria Iara, Uiara, Macunaiara. No papel do escritor, o renomado ator Pascoal da Conceição, que há anos encarna Mário de Andrade em diversos projetos no teatro e na TV, inclusive na primeira versão da Ópera de Iara.

Com banda formada por músicos renomados que acompanham Rennó desde o lançamento do disco (Macunaíma Ópera Tupi, selo SESC, 2008), como Curumin, Simone Sou, Guilherme Held, Daniel Gralha, Edy Trombone e Aline Falcão, mais quarteto de cordas sob a direção de Luiz Amato com arranjos de Dante Ozzetti e Arrigo barnabé, o musical transporta o público para o universo macunaímico transcriado por Iara. A música é o fio condutor, por onde se descortina a ‘dança de diferentes povos’ representada pelo corpo de baile liderado pelas dançarinas, pesquisadoras e coreógrafas Regina Santos, Luli Ramos e Janete Santiago. São 22 artistas no palco, onde se fundem a música com o teatro e a dança com interações audiovisuais. Gert Seewald assina cenografia e, em parceria com Iara, a direção artística do espetáculo. O trabalho de vídeo-mapping fica a cargo do duo Ligalight, o design de luz é do coletivo Miwi, e Fernando Narciso é responsável pela engenharia de som.


História

Na virada do século XIX para o séc. XX, o pesquisador alemão Koch Grunberg registrou sua pesquisa realizada com indígenas habitantes da região fronteiriça entre Brasil e Venezuela num livro chamado Mitos e Lendas dos Índios Taulipang e Arekuná. Uma das principais personagens destas lendas é Makunaima, uma espécie de deus transformador que tem a capacidade de assumir qualquer forma (humana, animal, vegetal ou mineral), de transformar as pessoas em coisas e vice versa, além de ter características bastante humanas como a preguiça, a covardia, entre outras. Daí, Mário de Andrade tiraria, não só a inspiração para seu mais famoso livro, mas vários dos próprios mitos que aparecem em sua história.

Nos anos 60 Macunaíma virou filme (Joaquim Pedro de Andrade) e nos 70, peça de teatro (Antunes Filho). Mas foi apenas em 2008 - já no séc XXI, justamente na efeméride de 80 anos - que a obra de Mário ganharia uma interpretação integralmente voltada à sua latente musicalidade, com o disco Macunaíma Ópera Tupi - MacunaÓperaímaTupi, de Iara Rennó. Um ano após lançar o álbum Iara encontraria a prova irrefutável de que essa idéia não só fazia todo o sentido, mas era desejo do próprio autor: a ópera fora imaginada e rascunhada por Mário num pequeno documento datilografado encontrado no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros - USP). Em 2010 o musical teria sua primeira montagem em brevíssima temporada no histórico Teatro Oficina, com sucesso de público e crítica. Nesta recriação Macunaíma ressurgia no corpo de uma mulher negra, a atriz e cantora Thalma de Freitas. Ao trazer este corpo para o protagonismo, Iara realizou uma antropofágica transgressão e trazendo `a tona, já naquela época, a atualíssima discussão de gênero e afirmação do empoderamento feminino. Sua pesquisa e processo de criação no entanto, haviam começado quase uma década antes:

“Li Macunaíma pela primeira vez no ginásio, sem prestar muita atenção, e pela segunda em 1999 na faculdade de Letras (USP); desta vez, ao ler o primeiro período do livro, uma melodia me saltou aos ouvidos como que imagem em 3d quando salta aos olhos. A prosa apresentou seu ritmo, sua ginga, cheia de rimas e aliterações, reverberações dos sons. Na minha cabeça a música começou a tocar e não parou mais. Logo tive contato com textos de Haroldo de Campos, Gilda de Mello e Souza, Telê Ancona Lopez e José Miguel Wisnik que, cada um sob seu ponto de vista, tratam da presença da música na obra, comprovando minhas intuições e embasando meu intento de fazer o livro virar ‘num’ disco. De 1999`a 2006 trabalhei pra dar forma a este cancioneiro. São três as passagens de texto em prosa que musiquei, fazendo cortes, mas nunca acrescentando palavras. O resto das canções foram feitas sobre os versos que a história traz – músicas que sempre estiveram ali, mas quietinhas. E as formas da música popular do Brasil se misturaram com tudo quanto é música contemporânea que ouvi. Então eu fiz: conservando e corrompendo a tradição, colando e recriando, bem ao gosto do poeta e ao sabor da obra, 'na fala impura'.” Iara Rennó

Gravado com o patrocínio da Petrobrás (PPC 2006) e lançado pelo selo SESC em 2008, o disco Macunaíma Ópera Tupi tem sido utilizado como complemento do estudo da obra original em aulas de literatura por professores de colégio e cursinho pré-vestibular pelo país.


Macunaíma Ópera Tupi - álbum

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Finalmente! lançamento Selo Sesc marcado para 25 de janeiro de 2019 em todas as plataformas digitais!

Gravado com o patrocínio da Petrobrás (PPC 2006) e lançado pelo selo SESC em 2008, o disco Macunaíma Ópera Tupi (tirar link) tem sido utilizado como complemento do estudo da obra original em aulas de literatura por professores de colégio e cursinho pré-vestibular pelo país desde então.

Produzir esse disco foi uma viagem profunda pra dentro da história do livro e portanto de mitos e lendas da nossa própria história. Um processo antropofágico em que tive a honra de ter participações de artistas de diferentes gerações e estilos: de Tom Zé `a Moreno Veloso, de Arrigo Barnabé `a Siba, de Barbatuques `a M.Takara. O projeto do álbum foi selecionado e premiado pelo Prêmio Petrobrás Cultural 2006, gravado em 2007 e lançado em 2008 pelo Selo SESC.

Cada faixa tem uma instrumentação diferente, um estilo, um encontro. Assinam as produções artistas que também tocam no disco: Siba, Kassin, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Beto Villares, Alexandre Basa, Maurício Takara, Daniel Ganjaman, Quincas Moreira e Buguinha Dub, além da própria Iara. Arrigo Barnabé e Dante Ozzetti participam com incríveis arranjos de cordas e Caçapa com arranjo de metais. Tocando e cantando, temos Tom Zé, Funk Buia, Bocato, Anelis Assumpção, Guizado, Andréia Dias, Gustavo Ruiz, Maurício Badé, Tom Rocha, André Negão, Simone Julian, Simone Sou, Joana Adnet, Amilcar Rodrigues, Marcelo Monteiro, Tiquinho, Mariá Portugal, Gustavo Souza, Décio Gioielli, Funk Buia, Rian Batista, Bocato, João Taubkin, Guello, Dimous Goudaroulis, Zezinho Pitoco, Dj Marco e Vina Lima. Os tambores da Nação Zumbi: Gilmar Bola 8, Toca Ogã e Da Lua. Os Barbatuques: Marcelo Pretto, Dani Zulu, André Hossói, Fernando Barba, Mairah Rocha, Bruno Buarque, Flávia Maia. O Coro dos Espíndola: Alzira E, Tetê Espíndola, Sérgio Espíndola, Jerry Espíndola. Com Siba, a Fuloresta: Biu Roque, Mané Roque, Cosmo Antônio, Zeca, Bolinha, Galego do Trombone, João Minuto, Roberto Manoel. O quarteto de cordas: Luiz Amato, Ricardo Fukuda, Alexandre de Leon e Flávio Geraldini. São ao todo - entre músicos, cantores, produtores e arranjadores - 67 participações, todas pra lá de especiais, fora a equipe técnica. Um trabalho que envolveu muita gente, no melhor sentido da palavra, abraçando e sendo abraçado, dando espaço criativo e propondo caminhos.

Nas diferentes formações da banda dos shows, passaram também os incríveis artistas e músicos: Karina Buhr, Curumin, Daniel Gralha, Guilherme Kastrup, Simone Sou, Du Moreira e Guilherme Held.

Quer o disco físico, com a ficha técnica completa e texto de apresentação do Professor Danilo Santos de Miranda? Receba em casa comprando pelo site do SESC

Ouça entrevista contando um pouco deste “disco que dava um livro” no Programa Radar (rádio Roquete Pinto, RJ).

Não conhece o disco ainda? Aqui!


Macunando

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Macunaíma - solo

Acompanhada por sua guitarra, Iara passeia por todo repertório do disco, cantando e contando os causos de nosso anti-herói brasileiro, propiciando um mergulho na gênese da composição que resulta do encontro entre música e literatura. Compacto em formação instrumental (guitarra e voz), ele fica bem em espaços menores ou estruturas técnicas reduzidas. Duração aproximada: 60min.

Macunaíma Música e Prosa

Tendo como fio condutor as músicas criadas por Iara, Macunaíma Música e Prosa revela com detalhes a natureza essencialmente musical de Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter, obra original de Mário de Andrade. Executadas ao vivo, as canções serão contextualizadas na história e terão sua gênese contada, assim como um breve apontamento das referências folclóricas a que remetem - através de exemplos comparativos com os registros em áudio da Missão de Pesquisas Folclóricas (expedição idealizada por Mário e realizada na década de 30). Em cada canção será analisada a forma do texto que foi utilizado na composição e quais as características poético-musicais nele presentes. Meio aula, meio show, com espaço para bate-papo, pode ser realizada em auditórios e salas multimídias. Ideal para eventos de universidades ou espaços de discussão de literatura. Duração aproximada: 100min.

Macunas

Este é um espetáculo que mistura música, literatura e artes visuais. Com três mulheres ao palco em performance eletrizante, a Iara e suas amazonas musicais – as MACUNAS – apresentam o repertório do álbum Macunaíma Ópera Tupi. As músicas, todas criadas com trechos da obra original de Mário de Andrade, ganham novos arranjos na formação do trio. Guitarra, bateria, samplers, clarone e as vozes singulares conferem ao som expressividade única. O show conta ainda com vídeo-cenário, criando uma atmosfera cinematográfica onde as performers ficam imersas. Assim como o livro e o disco, MACUNAS nasce também do processo antropofágico, onde, após o ato de devorar o anti-herói Macunaíma e toda sua substância, a Uiara (Iara) o devolve ao mundo, desta vez em recriação essencialmente feminina. Duração aproximada: 70min.

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Macunaíma Ópera Tupi - Trans_criação

O exuberante aspetáculo Musical reúne música, teatro, dança, artes visuais e video-arte. Partindo do texto de Mário de Andrade, a Ópera transporta o público para o universo macunaímico transcriado por Iara, reunindo fragmentos de diferentes textos que criam um corpo político e contemporâneo. De acordo com o mito original de Makunaima, o deus/ herói tem a capacidade de transformar-se, assumindo diferentes formas.

Nessa montagem, Makunaima está encarnado no corpo da artista trans Aretha Sadick assim como no corpo do muiti- artista macuxi Jaider Esbell. O ator Pascoal da Conceição é Mário de Andrade, Iara é a Uiara e a mulher que veio para contar/ cantar a história. Com dançarinas, banda de músicos renomados e quarteto de cordas, são ao todo 22 artistas no palco. A direção artística fica à cargo de Iara Rennó e Gert Seewald, parceria iniciada desde o lançamento do álbum, em 2008. Duração aproximada: 120min.



Macunaíma Ópera Baile – teaser no Teatro Oficina

MacunaÓpera por José Miguel Wisnik

“Finalmente vi a “Macunaópera” de Iara Rennó, o ambicioso espetáculo com percussões, teclados, naipe de metais, quarteto de cordas, bailarinos, tendo ao centro a compositora, cantora, instrumentista e atriz dançarina. (…) o espetáculo me convenceu justamente pela coesão. Iara não quer narrar nada, não quer contar mais uma vez a famigerada história do herói sem nenhum caráter. Ela extrai de “Macunaíma” aqueles fragmentos de cantilenas mântricas, aqueles vestígios de música que estão no livro de Mário de Andrade por toda parte, e nos envolve num banho hipnótico que é pura atmosfera de palavras-sons. Entra no livro por uma orla menos consciente dele, mas que é a chave de tudo, no caso desse escritor músico. (...)

Assim vai indo quando chegamos ao momento mais surpreendente. Thalma de Freitas, que dormia até ali em cena, numa rede, no papel de Macunaíma, se levanta para a cena crucial em que o herói se defronta com a Uiara mortífera que o aguarda tentadoramente no fundo de uma lagoa, enquanto ele é chicoteado imaginariamente pelo calorão da vingativa Vei, a Sol.

Segue-se um dueto vertiginoso entre Thalma e Iara, em que ambas cantam alternadamente as “Bachianas Brasileiras” n. 5 de Villa-Lobos, na íntegra, enquanto alternam as falas do episódio das sereias em Ulisses e o episódio do mergulho e do estraçalhamento de Macunaíma. Conhecemos as “Bachianas” por Bidu Sayão, da época de Villa-Lobos, lembramos do momento em que Elizete Cardoso ousou cantá-la, nos anos 60, instigada pelo irrequieto maestro Diogo Pacheco, tendo sido impedida de continuar a faze-lo, lembramos da cena em redemunho de Corisco e Rosa em “Deus e o diabo na terra do sol”, todas as vicissitudes que essa melodia atravessou entre o erudito e o popular, a música e o cinema, até vê-la se cruzar com a cena capital do Modernismo, a ambivalente morte e renascimento do herói de nossa gente.

Que isso seja feito com uma beleza inacreditável, hoje, por uma jovem negra linda, de cabelo moleque, cantora da Orquestra Imperial e atriz de telenovelas, diante de uma outra que faz renascer o livro porque o tem todo em si, e que se chama justamente Iara, provocou em mim um efeito-cascata de emoções profundas. É que, por menos que sejamos capazes de percebê-lo de uma maneira concentrada, uma coisa assim não acontece sozinha, e só acontece como sinal de outras.”

Obra Social obra social

Por consequência da importância da obra original, a leitura musical produzida, além de apresentar expressão estética singular, estende-se ao âmbito da educação, podendo assumir caráter didático se usada como estudo complementar do livro. Com esse fim, algumas centenas de exemplares do disco foram distribuídas em escolas em secretarias de educação e cultura de vários estados, fundações de Cultura, Pontos de Cultura, bibliotecas, centro de formação de professores, e ONGs – muito além da contrapartida social obrigatória de qualquer projeto realizado através de incentivo fiscal – já que um grande agente motivador para a realização do projeto foi justamente o fato de saber que algumas músicas, desde 2003, já estavam sendo usadas em aulas sobre o tema referido.


Interações Espontâneas

Macunaíma - Iara Rennó por Prof. Ricardo Andrade